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sexta-feira, 27 de maio de 2011
sexta-feira, 20 de maio de 2011
POESIA E CANÇÃO BRASILEIRA - parte 6
O que importa, nesse percurso histórico da canção no Brasil é entender suas raízes e como se fortaleceu no imaginário popular do Brasil, sendo constantemente mencionada como elemento destacado da construção da identidade nacional ao longo do século XX, sobretudo com o projeto nacionalista de Getúlio Vargas, já na década de 30 e 40 do século XX, período eminentemente posterior à discussão sobre a nacionalidade proposta pela Semana de 22, conforme abordei no início dessas considerações críticas. Importa ainda estabelecer comparações com a poesia e sobretudo com a reflexão de um autor como João Cabral de Melo Neto, tão centrado em seu ideário estético e sua valorização do trabalho de arte em detrimento da inspiração. Ainda, com João Gilberto, intérprete refinado que pintou novos contornos à interpretação de canções, também fazendo uso da concisão como principal via de materialização estética para o seu trabalho.
Assim, concluo que a canção e a poesia apresentam aproximações grandes. João Cabral de Melo Neto, um poeta inserido no cânone da Literatura Brasileira, aproxima-se e muito de João Gilberto e o modo cabralino de expressão é ao mesmo tempo bossa novístico no sentido de que evita excessos, evita derramamentos na interpretação, arranjo, figurino, cenário, etc priorizando o trabalho de arte ali contido.
Penso que o cancionista popular corresponde a um cronista, a um poeta, um trovador. O cancionista, compositor ou intérprete popular tem possibilitado que se cante o que em muitos casos o povo não sabia ou estava impedido de falar, escrever, relatar. O compositor, por meio dele mesmo ou de seu intérprete, é possuidor de mais de uma voz. São rimas e ritmos que nos constroem e reconstroem enquanto filosofia e também espaço. Não me parece exagerado afirmar que se o povo não teve acesso facilitado a livros, cinemas e partituras, tem a capacidade de ouvir. Além de acessar as canções por meio dos aparelhos de som, do rádio e da televisão, as festas também são, momentos de propagação de música e poesia, à medida que a canção propõe tal casamento.
quarta-feira, 18 de maio de 2011
POESIA E CANÇÃO BRASILEIRA - parte 5
O autor enfatiza ainda a idéia de que criação subordinada à comunicação é diferente de atletismo intelectual, sendo que afirma em entrevista certa vez que escrever poesia sem regras era como jogar tênis sem rede, não tinha sentido, não se justificava. De novo o paralelo poderia se dar ao pensar o atletismo vocal vigente em grande parte até a década de 50 em comparação à comunicação do canto contido, por onde se expressaram Mário Alves, Noel Rosa e depois João Gilberto, cantores de voz frágil mas de extrema comunicação com o público ouvinte.
O tempo todo enquanto lia e tomava contato novamente com a serventia das idéias fixas de João Cabral há mais de 10 anos após um contato demorado com o ideário cabralino em virtude de um mestrado, me deparava com considerações sobre a canção. E para minha surpresa, a releitura do artigo intitulado “Da função Moderna da Poesia”, publicado em São Paulo em 1954 veio elucidar algumas questões.
Nesse pronunciamento, o autor expõe a idéia de que a poesia moderna caacterizava-se pela pesquisa formal ou captação da realidade objetiva moderna e dos estados de espírito do homem moderno. Também traça considerações sobre aquilo que chama de enriquecimento técnico da poesia moderna. Estabelece uma bela imagem quando fala que poemas seriam como flechas, sem destino definido, sendo a função do poeta jogá-los independente da pretensão de saber o destino final. E mais à frente, me desafiou a um ajuste de contas afirmando peremptoriamente que as letras de canções não eram boa literatura. Quase saltei da cadeira e passei imediatamente a buscar explicações mediante algo que me parecia sisudez crítica em demasia. A primeira coisa que pensei foi que à época da afirmação de Cabral ainda não havia se delineado de forma mais consistente a canção brasileira enquanto casamento de poesia e música. A Bossa Nova que é sabidamente o ponto de encontro da tradição percussiva africana presente na genealogia do samba, com o requinte harmônico dos acordes dissonantes presentes no jazz americano e ainda com a lírica brasileira de qualidade, visível por exemplo na figura de Vinícius de Moraes, ainda não havia se afirmado.
quarta-feira, 11 de maio de 2011
POESIA E CANÇÃO BRASILEIRA - parte 4
Pode-se afirmar que a história literária oscila entre esses opostos, contenção e excesso, expressão de conjunto de valores de cada época. Assim pode-se pensar a preferência cabralina pelo barroco espanhol em detrimento do romantismo individualista que traz consigo a possibilidade de interpretar a norma estabelecida à sua maneira levando o poeta a criar sua norma particular. Cabral em entrevistas se filia a Kilkerre, Sousândrade e à família dos poetas de preocupação formal rigorosa. Também a preferência de João Gilberto pela sutileza como norma à sua expressão cancional entraria no mesmo plano de particularidade, ao reverenciar Noel Rosa e priorizar a expressão na matriz samba em formato contido no tocante ao canto e execução do violão.
Afirmo que a escolha pela tradição literária espanhola molda Cabral de forma diferente à grande parte da lírica brasileira e assim o ideário poético exposto pelo autor encontra melhores linhas explicativas ao filtrarmos as idéias de Cabral sob esse ponto de vista. Também João Gilberto em sua escolha abriu um caminho diferente, ao dar voz aos cantores de poucos recursos vocais no sentido da força do canto, associada ao volume e herança do canto operístico em que o famoso Dó de peito imperava enquanto norma. O avanço da tecnologia de microfones, proporcionando melhores condições de captação tanto para gravações em estúdio quanto para espetáculos ao vivo, sem dúvida tem parcela significativa de contribuição nessa mudança de paradigma. Mas interessa-me sobretudo o exercício de filiação entrevisto no modo de João Gilberto e Cabral se expressarem.
Refazer a leitura da poesia espanhola do século de ouro, por exemplo, torna-se exercício extremamente prazeroso quando se abre tal possibilidade de leitura comparativa. Cabral em comparação ao modo de Góngora e Quevedo, por exemplo, pensarem a poesia. Mais visível na parte estrutural do objeto poético do que propriamente nos temas abordados, na premissa comum de que a poesia enquanto resultado de pouca elaboração desdenha da forma.
Do mesmo modo, João Gilberto filia-se à tradição da música negra muito presente numa cidade como o Rio de Janeiro e ao mesmo tempo nega-a quando para se expressar cria um novo campo de possibilidades, envolvendo voz baixa, sem percussão, valorização dos silêncios na interpretação da peça cancional, trazendo ainda, à maneira de Harold Bloom, suas influências perceptíveis na escolha de repertório em que ele valoriza a tradição da canção brasileira. Tal influência, daquela maneira paradoxal em que para estar à altura do autor homenageado é preciso ser diferente dele, se mostra fortemente em João Gilberto. Ele escolhe Assis Valente, Ary Barroso, Dorival Caymmi para fazer parte de seu repertório mas o faz cantando de maneira diferente, como Noel Rosa. Diversos estudiosos relatam a importância de João Gilberto e seu canto contido como possibilitador do surgimento de outros cantores e compositores, como Roberto Carlos e Chico Buarque por exemplo. Vozes de pouca extensão, vozes de compositores, distantes do bel canto vigente ainda na primeira metade do século XX e que tiveram o caminho desbravado pela aparição do modo João Gilberto de interpretar canções. Técnica apuradíssima e um modo inteligente de utilização da voz enquanto instrumento musical, são marcas de João Gilberto em seu canto bossa novístico.
Do mesmo modo a idéia de Cabral expressa no princípio da década de 50 era usar a técnica e a inteligência (funcionalidade do trabalho de arte) para intensificar a emoção. Na pág. 733 cita a poesia épica (El Cid foi objeto de estudo aprofundado enquanto esteve na Espanha), teatro em verso e poemas de arte mayor dos espanhóis como importantes elementos à reflexão e que fazem parte de sua forma de enxergar o objeto lírico. Essa arte “mayor castellana” seriam poemas em dodecassílabo, com dois hemistíquios, em cada um dos quais se dá a combinação de duas sílabas átonas entre outras duas tônicas.
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O artigo segue...
terça-feira, 10 de maio de 2011
POESIA E CANÇÃO BRASILEIRA - parte 3
Avançando nessa idéia de procurar a suposta filiação do autor de “O Cão sem plumas”, cheguei ao ponto que é apresentada sua mais que lúcida reflexão sobre composição literária em itens que passo a mostrar através de jogos de oposição:
*Inspiração (espontânea, fácil, instintivo, presença sobrenatural, depoimento, divino, poeta é um ser passivo que espera o poema, cantar, puro jogo de palavras, empobrecimento técnico. Poema se impõe ao poeta. Membro que se amputa, incompleto e incapaz de viver por si mesmo. Poema = Ditado de anjo ou inconsciente);
*Trabalho de arte (elaboração demorada que leve em conta proporção, objetividade, difícil, minúcia obsessiva, atividade material e quase de joalheria, construir com palavras pequenos objetos para adorno das inteligências sutis, pode significar a criação absoluta em que as exigências e as vicissitudes do trabalho são o único criador da obra de arte. Desgosto contra o vago e o irreal, contra o irracional, inefável, contra o misticismo, contra o desgosto pelo homem e sua razão. Poeta se impõe ao poema que é escrito pelo olho crítico. Mais trabalho= mais riqueza. Filho com vida independente. Trabalho em que mais se corta do que acrescenta. Elaboração é fim em si mesma).
Cabral comenta e diz que ambas visam à criação de uma obra com elementos da experiência de um homem, em que prática e domínio técnico tendem a reduzir o que na espontaneidade parece domínio do misterioso e a destruir o caráter ocasional com que surgem aos poetas certos temas ou associações de palavras.
A Bossa Nova sempre que mencionada em comparação histórica, apresenta-se como um dos elementos que mostram a entrada do Brasil na modernidade, junto com Brasília e a chegada da indústria automobilística. Assim, a expressão da zona sul carioca demonstraria musicalmente a definitiva entrada do país naquilo que haveria de mais avançado industrialmente e ao mesmo tempo musicalmente falando, já que nas prateleiras de disco a bossa brasileira era encontrada em seções de Jazz.
Interessa-me sobretudo traçar comparações entre as expressões dos dois autores, um poeta e um intérprete de canções. Entendo que a interpretação no universo da canção, também trata-se de exercício de criação, à medida que o cantor em suas escolhas estéticas envolvendo impostação, figurino, performance corporal, por exemplo, está criando em cima de uma base melódico-harmônica proposta pelo compositor. Assim, a contenção de João Gilberto, apresentando-se de maneira sóbria no tocante ao figurino, sempre no formato banquinho e violão e usando voz suave, indicam uma escolha deliberada por parte do cantor no sentido de valorização de uma norma particular, evitando excessos em diferentes planos de expressão tal como João Cabral de Melo Neto no mesmo período histórico.
quarta-feira, 4 de maio de 2011
POESIA E CANÇÃO BRASILEIRA - parte 1 e 2
Minha idéia nesse texto é estabelecer aproximações entre a forma de João Cabral de Melo Neto pensar a poesia, ideário presente nos textos “Poesia e Composição – Inspiração e o trabalho de arte” e ainda “Da função moderna da poesia”, em comparação à forma de expressão de João Gilberto, intérprete símbolo da bossa nova. Começo trazendo uma cronologia de publicação do poeta pernambucano, para situar a discussão na década de 50 do século XX, período em que João Cabral publica os dois textos críticos acima e época que viu florescer a bossa nova na zona sul carioca, ganhando o mundo através do violão com voz de João Gilberto.
Pedra do Sono 1942
Os três mal amados 1943
O engenheiro 1945
Psicologia da Composição 1947
O cão sem plumas 1950
Poesia e Composição 1952
O rio 1954
A breve cronologia acima tem como intento situar a produção de João Cabral de Melo Neto até a década de 50 no século XX, paralelamente refletindo sobre ideias acerca da criação expostas no artigo de 1952, Poesia e Composição. Tais ideias já são bastante claras no início dos anos 50 e sobretudo coerentes com seu projeto literário que viria sedimentar-se posteriormente. Paralelamente à cronologia e ao ideário cabralino, situo ainda o objeto canção, amálgama de poesia e música, expressão significativa no âmbito da cultura brasileira ao longo do século XX e início do século XXI.
No início da década de 40 surge, por exemplo, a canção de exaltação “Aquarela do Brasil” de Ary Barroso e ainda essa década fica marcada pela expressão inicial de Dorival Caymmi, cancionista que solidificaria sua trajetória nas décadas seguintes. O projeto nacionalista de Getúlio Vargas está em pleno curso através da Rádio Nacional, difundindo a ideia de que a brasilidade sedimenta-se sobretudo no samba e em suas variações provenientes da herança negra colonial. Aliás, concernente a isso, é preciso destacar que nas décadas anteriores houve a afirmação dos ideais modernistas paulistas e depois a publicação de Casa Grande & Senzala por Gilberto Freyre em 1933, fatos que contribuíram para essa preocupação com a afirmação da identidade nacional proposta no Estado Novo sedimentando-se na escolha do samba como referência de brasilidade. Nesse sentido o livro de Astréia Soares: Outras Conversas sobre o Brasil: O Nacionalismo na Música Popular, de 2002, é extremamente elucidativo à medida que a autora mostra a transformação do samba em ritmo nacional e como isso contribuiu para a construção da identidade brasileira. Demonstra ainda de que forma a política nacionalista do Governo Vargas e a consolidação do rádio como principal meio de comunicação da época foram fundamentais para que tal façanha tenha sido atingida. Segundo Soares (2002), as imagens do Brasil representadas na Canção Popular Brasileira são infinitas. Por esse motivo, é essencial compreendermos a nossa música como papel estruturante na construção da identidade nacional, ou seja, na construção coletiva do que é “ser brasileiro”. A autora ressalta que a identidade de uma nação é construída por meio de determinados elementos que mesmo sem poder ser definidos com exatidão, alguns se sobressaem. A música, a comida e a irreverência do povo seriam alguns deles. Como exemplo deste pensamento, Soares ressalta a invenção da batucada, que transformaria a gente triste e amargurada em entusiasta do prazer. Segundo a autora, esse ritmo não remete a uma “África perdida”. A batucada, para ela, é considerada um acontecimento tipicamente brasileiro. Mesmo que a expressão popular possua diversos panos de fundo, aponta, a imagem de sua alegria é entendida como outro ponto que legitima o traço da identidade brasileira. Alegria, expansividade, festa, transbordamento de sensações e expressões sociais e musicais.
Paralela a essa discussão, lembro que poeta João Cabral é costumeiramente associado à concisão, enquanto autor que evita os excessos. Salienta-se a primeira contradição: como um autor brasileiro, muitas vezes colocado pela crítica literária como um poeta de expressão regional, lida com essa força contrária, aparentemente anti-brasileira, a saber, a negação dos excessos? Cabral reitera ainda que partilha do entendimento de que o criador não deve se deixa raptar por qualquer estado emocional ditado pela inspiração. Eis aí a forma como preza a objetividade. Para tanto emite algumas definições de composição de modo comparativo: enquanto para alguns a composição lírica é o ato de aprisionar a poesia no poema, para outros é o ato de elaborar a poesia em poema. Também põe em oposição a idéia de que a criação é o momento inexplicável de um achado afirmando que tal poeta pouco tem a dizer sobre a composição pois em tal caso os poemas são de iniciativa da poesia que brota e cai mais do que se compõe. Contrapõe a esse modelo o exercício racional de horas enormes de procura: “feita de mil fracassos, de truques que ninguém deve saber, de concessões ao fácil, de soluções insatisfatórias, de aceitação resignada do pouco que se é capaz de conseguir e renúncia ao que se desejou conseguir”.
Retomo Cabral acima para pensar que no mesmo período histórico enfocado, década de 50, se dá a afirmação da Bossa Nova, através do trabalho de João Gilberto e sua batida sincopada ao violão, reproduzindo a batida de um tamborim nas seis cordas de nylon. Ao mesmo tempo que traz a batida característica do samba brasileiro, traz consigo o requinte das harmonias utilizadas pelo Jazz norte americando, marcado por acordes dissonantes em fascinante encadeamento harmônico. A Bossa Nova poderia ser pensada assim como elemento materializador dos ideais antropofágicos quase 40 anos após a Semana de Arte Moderna, ao propor a utilização do samba como base de expressão cancional, agregando a significativa contribuição estrangeira no uso de acordes alterados provenientes do jazz.
Retomando Cabral, em sua apresentação de ideário poético, ele afirma em determinado ponto que a crítica se aproxima da criação enquanto atividade individualista e incompreensiva, relegada à condição de criação de segunda mão, devendo verificar se a composição obedeceu a determinadas normas pois a norma foi estabelecida para assegurar a satisfação da necessidade. O autor pernambucano defende a premissa de que todo autor deve se preocupar com a criação de uma poética pessoal, que seja original e autêntica, sobretudo.
Aqui pode-se pensar no ideário de João Gilberto, criador que prezava a objetividade e a concisão também, fazendo interpretações enxutas com a base no samba e ao mesmo tempo fazendo uso de um canto contido, quase sussurado, evitando excessos e derramamentos românticos muito em voga no período no gênero bolero.
Pensando o lugar do poeta e do cancionista paralelamente, passei a refletir sobre a que tradição poética o autor Cabral se filiaria, onde ele teria elencado autores que pudessem ajudar a esclarecer esse perfil marginal quando pensado sobre o paradigma da lírica brasileira, tão afeita ao romantismo lacrimoso e excessivo muitas vezes. Enfim, uma lírica “inspirada” e “sublime”, diferentemente da lógica poética entrevista nos poemas cabralinos e também na expressão cancional de João Gilberto.
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Ouça: http://www.iteia.org.br/audios/avisa-que-o-amor-vai-chegar
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